quinta-feira, 14 de março de 2013

Quando só restar o vício...


Era uma da tarde. O restaurante estava cheio e o único lugar vazio era ao lado daquela senhora de cabelos curtos e loiros. Seus olhos eram azuis e seu prato estava cheio, talvez isso fosse um indicativo para o corpo fora de forma. Ao lado do prato um brigadeiro, que foi devorado imediatamente logo após o término do almoço.
“Quer que levante para a senhora passar?” Perguntei achando que o espaço era pouco.
“Não filha, ainda vou tomar o café. Sou fumante sabe como é?!”
Ela não precisava falar que era fumante. Com voz mais rouca que a da Nair Belo, qualquer um saberia que ela fuma pelo menos há uns 30 anos! Quando ela começou a falar foi muito difícil prestar atenção.  Fiquei imaginando o tempo todo que, se acaso eu não tivesse parado de fumar, eu seria ela no futuro!
Conversamos por volta de uns 20 minutos e foi o tempo suficiente para aquela senhora desconhecida chegar às lágrimas.
Ela tem 67 anos, aposentada, dois casamentos, sem filhos, fumante, come de mais, não pratica exercícios e diz levar a vida que gosta. Será?
“Nunca tentou parar de fumar?”
“Não! Tive uma vida muito estressada. Sempre trabalhei muito.”
“O cigarro é uma das muletas que temos na vida!”
“Concordo e não sei andar sem elas.” 
Mudou de assunto. Percebi que ela não estava a fim de falar sobre o vicio e nada adiantaria o que eu falasse contra ele.
Ela me contou sobre a plástica que fez aos 55 anos e sobre o ex-marido que a visita todos os dias às 16h e sempre diz o quanto ela é linda. Falou sobre a mãe com Alzheimer, da profissão de advogada, dos tempos que jogou na seleção feminina de vôlei, até se emocionar e falar dos irmãos e de uma sobrinha, que segundo ela, era tratada como filha.
Por um motivo banal, ela teve uma severa discussão com a irmã, o que resultou no afastamento de todos, inclusive da sobrinha.
Seu ultimo aniversário e natal foram marcados pelo absoluto silêncio da família.
“Nem se quer um telefonema!” disse ela já em lagrimas.
Continuando a conversa disse que suspeita estar com depressão. Como todos nós já tivemos uma fase “dark”, receitei a ela os florais que habitaram minha bolsa durante tantos meses!
Levantei para pagar a conta, ela veio atrás. Enxugando as lagrimas, pedindo desculpas e agradecendo.
Não sabia o que dizer a ela. Então recorri ao banco de conselhos que minha mãe me dá:
“Perdoe. Família é coisa mais importante da nossa vida.”
Ela acendeu um cigarro (tinha um pacote dentro da bolsa), disse que meu brinco era lindo e se foi sozinha, ou não, ainda resta-lhe o vício.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Vovó, continue dançando!

O nome dela é Maria da Penha. Maria da Penha Araújo. Na verdade era Botelho, mas seu marido a fez tirar o sobrenome do pai e seguir somente com o Araújo, nem se quer o Marques ela ganhou.
“Sinto saudade do meu sobrenome”, confessou ela em uma de nossas conversas.
“Pode deixar vovó, quando eu tiver um filho coloco seu sobrenome nele”, dizia eu enquanto colocava mais uma almofada em suas costas.
Fiz essa promessa quando tinha uns 08 anos e já teria me esquecido, se minha mãe não tivesse feito o favor de me lembrar.

Vovó não fazia doce, nem almoço de domingo e me contou somente duas, mas inesquecíveis, estórias durante toda minha infância, são elas: “Dona Baratinha” e “A moça que vendia banana”. Essa última não foi tirada de nenhum livro de contos infantis. Nasceu da profunda criatividade de Dona Penha, que se inspirava na Lurdinha, a moça que vendia banana e morava pra cima da minha casa. Lurdinha não ganhou, nem de longe, todo o dinheiro que a moça da estória conquistou, uma pena!

Que eu me lembre vovó passava alguns dias lá em casa. Meu pai a infernizava com mil e uma piadas de sogras.

“Ehh Dona Penha, o triste na vida é que sogra é igual esperança: A última que morre.”

Ela ria. Não sei se ela gostava ou ria para não mandá-lo para @#$%¨&*#$&*

Vovó sentia muito frio e dormia com muitas cobertas, cobria a cabeça e ninguém conseguia ver quem estava na cama. Ela roncava um pouco também, diga-se de passagem. Uma noite Rafael (meu irmão mais velho) invadiu o quarto de meus pais chorando. O menino morrendo de medo gritava: “Pai, me ajuda, pai, me ajuda!!!” “O que foi Rafael???” “Tem uma vaca no meu quarto!”

Há mais de 10 anos ela se arriscou em sair sozinha para rua. Ela conta que foi surpreendida por duas garotas que vinham na direção oposta e que passaram por ela feito um furacão, que a soprou direto pro chão. Ela não quis abrir os olhos, disse que quando cai mantém os olhos fechados para não ver o estrago. As meninas entraram em desespero pelos quase 10 minutos que vovó se manteve imóvel. Tenho certeza que no fundo ela fez de propósito para dar um castigo mais que merecido para as duas.

Vovó frequenta o Clube da Alegria, definido sabiamente por um tio meu como Escleroteca, desde que me entendo por gente. Acho que ela é a mais velha do clube. Conta com orgulho que no ano de 2009 (se não me falha memória) foi eleita a Rainha da Primavera!

O médico sempre disse: “Não pare de dançar Dona Penha, esse é maior remédio para se manter viva”

Outro lugar que vovó sempre falou muito é da PL, http://www.perfectliberty.org.br/. Segundo ela, foi lá que se tornou uma pessoa melhor.
Passou a frequentar mais os clubes e as igrejas depois que vovô morreu. Ela me disse que começou a viver de verdade quando ele se foi. Nasceu pro mundo aos 61 anos. Logo, é mais que justo que ela chegue aos 100!

Ela sempre me disse que eu era a neta preferida, embora eu saiba que ela fala isso pra todas! Dona Penha tem um coração grande o suficiente para abrigar toda a grande família.
Ela reza toda a noite pelos filhos, netos e bisnetos. Reza a porta da casa de todos nós. Portanto tios e primos, não se preocupem! Pra alguns ela pede pra Nossa Senhora Aparecida, pra outros ela pede pra São Judas Tadeu, eu to nesse grupo aí das causas impossíveis!
Reza a lenda que nenhum problema dessa vida é mais forte que a novena da vovó. Adoro pedir sua benção e gosto mais ainda quando ela diz: “Deus te abençoe minha filha e te de boa sorte”

Ela me ensinou uma frase que uso até hoje: “Não faça à Alice Lemos, nem a ninguém que lhe pertence”. Era o nome da sua mãe. “Se alguém um dia te fizer mal, diga essa frase em pensamento”

Vovó não é tímida, adora ser o centro das atenções e receber uma salva de palmas depois do discurso. Ela se levanta com dificuldade e fala nem que seja uma ou duas frases quando é solicitada. Sempre pedindo saúde e felicidade para os seus.

O tempo te trouxe algumas limitações. Precisa de ajuda para a maioria do afazeres cotidianos. Sua altura também se modificou, foi encolhendo, encolhendo, ficando mais baixinha que muitos bisnetos!

Dia 18 de setembro Dona Penha comemora 92 primaveras! Sem doenças, só os problemas inerentes à velhice, que afirmo, ela tem tirado de letra. Poucas pessoas continuam a sorrir, quando o corpo pede pra parar.

 Embora, algumas vezes vovó se sinta debilitada e outra já tenha me dito que cansou da vida, a vida não cansou dela! Muito menos nós!

10 filhos, 29 netos e 13 bisnetos. Pelos meus cálculos é isso aí! Ela é uma vovó fofa e o nó mais forte que une essa família tão grande!

Nesses 92 anos da Vovó Penha, quero desejar que ela continue dançando! Por muitos e muitos e muitos anos!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O melhor pai que a vida podia me dar!

A mais antiga lembrança que eu tenho do meu pai, é dele estacionando sua Brasília verde-limão na garagem.
Tinha o costume de subir no sofá para olhar da janela da sala se era ele mesmo que estava chegando. A janela era alta, na verdade eu era pequena demais, na verdade continuei pequena. Com meus pés apoiados na madeira do sofá, eu abria um enorme sorriso e gritava: "Papai chegou!!!”
Ele vinha para almoçar, todos nós já havíamos almoçado, ele ainda não. Ele se sentava e tentava assistir ao jornal, enquanto comia. Tentava, porque o fato deu escorregar em suas pernas durante todo o almoço o impedia de se concentrar em qualquer coisa, ainda mais em notícias. Ele não demorava muito, precisava voltar ao trabalho.

Ele ia embora e eu ficava atenta ao horário da "Escolinha do Professor Raimundo", pois gravava todos os programas, a fim de assistir em sua companhia depois do Jornal Nacional. Ele ria de todas as piadas. Eu ria da risada dele. O sono me acometia rapidamente, fazia esforço pra ficar de olhos abertos, mas era em vão. Meus poucos anos me davam muito sono e eu acabava por adormecer no sofá.

Fazia xixi e escova os dentes como uma sonâmbula. Não me preocupava, ele estava ali, me segurando. No amanhecer eu era surpreendida com muitos beijos estalados com cheiro de café. Muitas das vezes eu já estava acordada e ficava na cama escutando seus assobios, que formavam alguma música do Fagner. Acho que devia ser aquela: "Quem dera ser um peixe...”
Não me atrevia a levantar da cama, queria que ele viesse me acordar. Seus beijos me davam força, bom humor, felicidade.
 “Piriquita, budeguinhaaaa... ta na hora de acordar!”
Os apelidos não eram nada convencionais.
Demorava um ano para eu tomar aquele café com leite fervendo que ele me dava, acho que é por isso que até hoje não gosto de nada muito quente.

Meu pai pra mim era um homem forte, que enfrentava tudo e todos para me salvar. Como na história da onça que ele deve ter contado umas 3.500 vezes por pressão dos meus pedidos.
 “Saímos para fazer um piquenique: sua mãe, você, Rafael, João Felipe e eu. Quando estava tudo pronto para começarmos a comer, apareceu uma onça!
Tive que jogar todas as comidas para ela. Os pães, os bolos, as laranjas, os danoninhos... Quando acabou a comida eu joguei sua mãe, depois o Rafael, depois o João Felipe, depois você e por último joguei uma pedra! Lutei com a onça até que consegui matá-la, com uma faca a rasguei na barriga. Lá dentro estavam vocês, sentados na pedra, de barriga cheia! Tinham comigo todo o lanche e eu fiquei sem nada. ”

No fim da história eu estava chorando: “Não papai, eu guardei um danoninho pra você!”
Ele ria de mim e me abraçava para me acalmar. Ele sempre gostou de fazer isso comigo, me provocava até me fazer ir pro quarto chorando. Depois ficava no quarto dele deitado na cama me chamando: “Vivianneeeee, Vivianneeee”. Ele sabia que eu não resistia muito tempo, logo eu aparecia enxugando as últimas lágrimas e deitava ao seu lado.

Sempre tive ciúme dele. A única mulher que eu aceitava ao seu lado era minha mãe, isso porque ela sempre o deixou livre quando eu estava por perto. Ficava bufando quando a minha prima Bia (afilhada dele) sentava em seu colo. Eu chorava, empurrava e ela insistia em ficar ali, no colo que era meu!!!

Nas noites de verão ele chegava do trabalho e ia direto pra piscina. Eu já havia tomado banho, mas ia correndo colocar o biquíni e entrava junto com ele. Não perdia a oportunidade de nadar em suas costas.

Não moro com ele desde os meus 12 anos. O destino quis assim. A vida nem sempre é tão justa quanto a gente gostaria.
Mas mesmo assim, ele nunca deixou de ser o homem da minha vida, nem o herói que esquartejava onças para me salvar.
Sei que muitas vezes ele quis estar ao meu lado, me colocar no colo e ficar acordado comigo até de madrugada. Como ele fazia quando eu tinha 08 anos e a malvada da insônia insistia em me visitar.

Somos completamente diferentes nos atos e na forma de pensar. A vida se encarregou de nos dar personalidades opostas. Mas não tem quem jure que os opostos se atraem?
Nesse dia dos pais que se aproxima não vou almoçar com ele, nem lhe entregar um presente, muito menos deitar ao seu lado para conversar, até esperar que ele ronque. Mas quero que ele saiba: independente do dia dos pais, das mães ou das crianças, todos os dias que eu acordo eu me lembro dele e do profundo amor que eu sinto pelo melhor pai que a vida podia me dar!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Não acredito em nada não, só não duvido da fé...


Com certeza minha primeira ida à igreja foi nos braços da minha mãe. Não sei se foi no meu batismo, ou antes. Mas sei que foi cedo.
Minha avó Amália adorava contar para suas amigas beatas (não julguem como termo pejorativo):
“Minha neta toma parte de tudo na Igreja, eu mesma faço suas roupas para os teatrinhos.”

Na verdade, vovó Amália não coseu somente minhas roupas de Nossa Senhora e de Anjo, mas também quase todo meu guarda-roupa infantil.
Foi a melhor costureira que Valença já viu. Só costurava para os mais importantes brasões. Sua paciência também sempre foi grande, porque pra costurar pra mim, tinha que ter. Primeiro porque a primeira vista eu não gostava de nada. Dizia que tava ruim, que não era aquilo. Depois eu reclamava de tudo:
“Ai vovó ta pinicando”... “Ai vovó ta me espetando”... “Ai vovó tira isso que eu quero ir brincar”

Mas ao final minha roupa estava pronta e eu poderia entrar na Igreja sendo alvo de todos os olhares!
Fui Maria duas vezes. Uma na escola e a outra em um teatro da Igreja. Já coroei Maria um monte de vezes ou então entregava as palmas. Mas nunca aceitei ser o anjo coadjuvante. Sabe aquele que fica lá cantando e balançando a mão sem fazer nada? Não, esse eu nunca quis ser.

Sentava com a minha mãe no primeiro banco da igreja. Cantava as musicas tão alto que ela me cutucava para cantar mais baixo:

“PAZ, PAZ DE CRISTO. PAZ, PAZ QUE VEM DO AMOR TE OFEREÇO IRMÃOOOOOOO!!!”

“Vivianne canta mais baixo, todo mundo já viu que você sabe a letra!”.

No inicio não sabia bem o que eu fazia na igreja. Eu ia porque tinha que ir, porque aos domingos pela manhã era nosso ritual. Missa das 09:00h, depois banca de jornal para comprar O GLOBO, depois Padaria Carvalho para comprar cigarrinhos de chocolate.

Não sabia quem era Deus, nem Jesus, nem os apóstolos... Mas um dia eu quis saber. Tia Mafalda levou nossa turma do catecismo para igreja. A aula daquele dia foi na escadinha do altar. Rezamos o Pai Nosso e ela começou uma longa dissertação sobre Jesus. As vezes falava Jesus e as vezes falava Deus.

“Tia Mafalda, quem é Jesus?”
Desde pequena tenho essa péssima mania de interromper as pessoas.
Tia Mafalda fez uma cara de “Valeu por me interromper”, mas respondeu.
“Jesus é filho de Maria e de Deus, e como eu ia dizendo...”
“E quem é Deus?”
Tia Mafalda perdendo a paciência:
“Deus é o pai de Jesus, o criador! Ele que criou tudo: o céu, a terra, os animais, tudo! E como ia dizendo...”
“E quem criou Deus????”
Ela quis me tirar da aula, tenho certeza que quis!
“Como assim quem criou Deus?”
“É! Quem criou Deus? De que lugar ele veio? Ele tem pais?”
Tia Mafalda ficou parada olhando pra mim, desviou seu olhar para o altar como se pedisse aos céus uma resposta coerente para me dar, e assim poder prossegui com a catequização daquelas crianças.
De forma quase que pedagógica, Tia Mafalda explanou:
“Uma vez um homem andava pela praia se perguntando quem era Deus. De repente, ele avistou um garoto que havia acabado de fazer um buraquinho na areia. O garoto corria para o mar, enchia as mãos de água e trazia correndo para jogar no buraquinho. O homem intrigado se aproximou do garoto e perguntou: - O que você pensa que está fazendo garoto? Jamais conseguirá encher esse buraco de areia com água!
O garoto se virou para o homem e disse: É mais fácil colocar toda água do oceano dentro deste buraco, do que entender os mistérios de Deus!”
“Entendeu agora Vivi?”
“Mais ou menos, porque você não me disse de onde ele veio!”
“Não tem como provar que ele existe Vivianne! Isso é fé! Ou você tem ou você não tem!”
Fui pra casa fazendo um enorme esforço para acreditar naquilo tudo. Minha mãe disse que a Tia Mafalda estava certa e desde então escutei muito falar nessa tal de fé. Minhas avós são mulheres de muita fé. Vovó Amália, que já citei aqui e vovó Penha que parece ter um canal direto de comunicação com Deus.

Comecei a procurar pela minha fé. Ela devia estar em algum lugar adormecida dentro de mim. Não é possível que aquela menina que entoava de forma estridente as canções religiosas, já não acreditava em mais nada.
Minha mãe reclamava, pedia, implorava.
“Você não mais à missa Vivianne” “Você precisa ir à missa filha” “Por favor, filha, vamos???”
Mas a missa já não tinha mais sentindo. Não que Deus não tivesse sentido, entende? Mas tudo o que era dito no altar não era absorvido pelo meu cérebro. Entendia tudo como: blá, blá, blá, blá.

Rezava em casa, mas não Ave Maria e Pai Nosso. Rezava como se tivesse conversado com um amigo. Desabafava tudo, ria, chorava, fazia críticas, agradecia, pedia e foi assim que comecei a redescobrir minha fé. Isso só demorou porque eu procurava a fé dentro de mim e não era lá que estava.
Minha fé está nas coisas que eu admiro. A encontrei nas pessoas que eu amo, nos animais, na natureza. Nas coisas que supostamente esse poder maior chamado de Deus, criou em sete dias e sete noites.

Hoje quando acordei e fui passear com Zé, decidi mudar o roteiro. Ao invés de levá-lo ao parque, caminhei com ele até a praia. Sentei na calçada e ele deitou na areia a fim de despedaçar um coco em questão de minutos. Fazia uma manhã esplendida. O sol, mesmo fazendo força para esquentar, já reluzia nas águas do mar. Me emocionei. Lembrei das explicações de Tia Mafalda e vi minha fé ali, brilhando tão forte quanto os raios do sol.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Por isso uma força, me leva a aguentar.


“O ser humano se adapta a tudo.”  

Alguém em algum lugar do tempo ou do espaço proferiu essa sábia afirmação.
Talvez a gente se adapte ou talvez a gente se acostume. Talvez a gente suporte ou talvez a gente se engane.

Quando a dor chega e parece que vai te matar, porque já te pisou, te cuspiu e te esfolou, vem gritando lá dentro uma força meio no estilo He-Man, que começa a espantar, um a um, os males que nos atormentam.
Pra quem acredita, como eu, essa força chama-se Deus. Pra quem não acredita, podemos chamar de... De força.
Movida por Deus, pelo cérebro, pelo coração ou pelos instintos, a força nos faz carregar a dor por longas estradas esburacadas.

Não sou a pessoa mais indicada para falar de força, muito menos no quis diz respeito à força física. Um exemplo disso foi a cena um tanto quanto inusitada de Fernando e eu carregando uma cama box, pelas calçadas da Nossa Senhora de Copacabana. É lógico que ele fazia mais força que eu. De 2 em 2 minutos eu arriava a cama no chão, meus braços pareciam que iam descolar do corpo. Os homens parados na calçada e os porteiros de plantão olhavam para Fernando com cara de ódio. Um deles chegou a se manifestar: “Carrega isso nas costas irmão!”
Mal sabiam eles que Fernando estava fazendo um favor pra mim. Já que a cama era minha.
Fiquei dois dias com meus braços doendo, com pouca força até para levantar o garfo.
Acho que preciso voltar pra academia, quem sabe de 5 em 5 kg vou ficando mais forte.
Que pena que a força física não adianta de nada, quando nosso corpo nos exige uma força emocional. Se adiantasse, os professores de educação física seriam riquíssimos!

Outra coisa boa seria se pudéssemos, assim como Fernando me ajudou a carregar a cama, dar uma “força” para nossos amigos e ajudá-los a carregar a dor que sentem. Já viu uma pessoa sofrendo e quis tirar a dor dela de qualquer jeito? Ou pelo menos ajudá-la a carregar aquele fardo?
“Vamos amigo, segura naquela ponta da tristeza que eu seguro nessa e juntos atravessamos essa Avenida”.
Seria tão mais fácil! Reduziria muito aquela sensação de impotência que nos dá quando não podemos fazer absolutamente nada pelo sofrimento do outro.
Se bem que às vezes um colo, um abraço ou apenas emprestar os ouvidos para que ele derrame seu coração, já é como ajudá-lo a carregar uma cama box.

Vejo por aí pessoas que passam por todo tipo de coisas ruins e aguetam firmes sem derramar uma lágrima. Eu as admiro, porque sou muito chorona. Choro quando sinto dor, quando fico triste, quando me emociono.
Chorar pra mim é tão fácil quanto rir. Choro relendo cartas, vendo fotos, ouvindo músicas, vendo filmes então!
Chorei em todos os filmes do Beethoven, aquele o magnífico! Choro vendo novelas e filmes idiotas de comédia romântica. Chorei muito lendo Marley & Eu, olhava pro Zé pequeninho deitado no pé da cama e me acabava. Me debulho em lágrimas também na cena de Armageddon, quando o pai dela vai morrer, o ápice do chororô é na hora que a música chega no refrão:
I don't wanna close my eyes, I don't wanna fall asleep, 'Cause I'd miss you, babe
Meu inglês embolado se embola as lágrimas e nem cantarolar consigo direito.
Minhas forças sempre desmoronavam quando assistia Cinema Paradiso, será que só eu chorava quando o cinema pegava fogo?

Logicamente o fato de eu ser chorona, emotiva, bobona de carteirinha, não significa que eu seja fraca. Até porque como dizem, a gente só conhece a força que guardamos dentro de nós, quando algo a impulsiona para fora.

Quando eu caí na piscina e tive que ser operada, acabou a luz do hospital e por pouco meu pai não teve que me carregar no colo por 10 andares, sorte a dele e de seus braços que a luz voltou. Ele disse que iria à Lua comigo nos braços e olha que meu apelido (bullying) familiar, era chumbinho! Ele precisaria de muita força pra me levar à Lua!
Já minha mãe nunca disse que iria à Lua comigo no colo, mas sempre repetiu que teria força de 5 leões se fosse para defender seus filhos, embora ela tenha apenas um metro e meio!

Me parece que o peso do amor impulsiona todas as forças e elas nos fazem aguentar qualquer tipo de tormenta e, ainda assim,  sair inteiros da tempestade, mesmo que saiamos bem molhados e com pneumonia daquelas!


OBS: Este post é dedicado a Giullia, uma menina muito forte, que usa o grande amor que carrega em seu coração, como fonte de energia para toda sua força!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Quebrando as muletas!



Todo mundo tem ou teve alguma dependência na vida. Seja ela financeira, amorosa, química, física...

Se livrar das dependências é mais difícil do que se imagina. Elas sempre deixam vestígios.

Por exemplo, quando você vai almoçar com seus pais. Por mais que você já trabalhe, tenha seu dinheiro, a dependência sempre fala mais alto e você acaba empurrando a conta para seu progenitor pagar, estou errada? São os vestígios de uma dependência financeira de muitos anos, é difícil!
Dependência financeira nem é tanto o problema... O pior é a dependência por dinheiro. Tem muita gente por aí que prefere a morte a ficar sem dinheiro. A pessoa tira dele o sustento pro corpo e pra alma.

A dependência amorosa tem sintomas claros e é mais comum do que se imagina. Todos nós já vivemos isso, alguns com menos e outros com mais intensidade. Mas sempre causa estragos!

Se você já foi um dependente químico sabe que os estragos nessa área também são grandes e que iminência de uma recaída é constante.
Na maioria dos momentos, sejam eles bons ou ruins, você imagina: Putz uma cachacinha agora hein?! Ou então: Poxa se eu tivesse um cigarro!
Cara um baseado salvaria! Quem sabe uma carreirinha!
Tem gosto pra tudo né?

Eu assumo, fui uma dependente química.

Antes que alguém pense que eu fui usuária de pó, crack ou oxi, antes que minha mãe tenha um treco lendo esse post e caia da cadeira, adianto que minha dependência química se limitou ao cigarro. Droga lícita, mas segundo pesquisas destrói e vicia mais que muitas drogas ilícitas!

Faz mais de um ano que abandonei meu grande companheiro, depois do Zé é claro.
Mais que companhia ele me fazia! Não perdia nenhum momento!
Quando não estava em minha bolsa, estava em meu bolso. Passava a maior parte do dia em meus dedos, mas e depois que acabava? Ele continuava em mim, através do seu cheiro... Em meu cabelo, em minha pele, em todas as minhas roupas.

Quando paro pra pensar em todas as marcas de cigarro que eu já fumei, meu pulmão chega a contrair!
Hollywood Azul foi o último que circulou pelo meu cinzeiro, mas antes dele vieram muitos. Foi com seu primo, o Hollywood mentolado, que comecei a fumar. Passei pela fase Free, Malboro Light, algumas vezes Carlton. Muitos e muitos maços de Derby Prata, sempre com aquela ressalva: “Fumo Derby e não sou pedreiro”.
Fumei alguns Dallas, mas era sempre a última opção, praqueles dias que todo o meu dinheiro do mundo eram R$ 0,10. Tenho a ligeira impressão que aquele rato que vem atrás dos maços cigarro, morreu depois de fumar um Dallas. Um amigo meu de adolescência, o Leo, dizia que L&M dava bolha de pus no estômago, confesso que evitava comprá-lo. Do tipo, podia F%$#@ com meu pulmão, mas porque dava bolha de pus no estômago, aí não comprava! Que irônico!

Algumas vezes fumei cigarro do Paraguai, um tal de Palermo. Tempos depois vi uma reportagem que dizia que nesses cigarros, além de toda a porcaria que a gente já tem conhecimento, eram colocados barbantes moídos, mosquitos, baratas... Ai meu pulmãozinho para de contrair, por favor!

Foi difícil abandonar o cigarro. Não sei explicar como foi, mas foi difícil. Nada diferente de abandonar nenhuma dependência.
Conheço pessoas que não conseguiram, foram até a morte com seus vícios. Conheço outras que quiseram adiantar a morte por conta deles.

Tive um amigo na época da faculdade que era usuário de Crack. Ele foi internado algumas vezes. Sempre que eu podia ia visitá-lo. A clínica não era só para tratamento de dependentes químicos, mas para tratamentos psicológicos em geral. Na época da internação desse meu amigo, conheci lá uma mulher que tinha tentando suicídio após o fim de um relacionamento. Conheci também o Gustavo (nome fictício). Um cara muito bacana que também estava internado lá, mas o motivo dele era o crack mesmo.
Gustavo me relatou que se sentia muito sozinho, que só seus pais apareciam na clinica. Ele não tinha mais amigos, a dependência os afastou.
Eu não ia à clinica para visitar Gustavo, mas passei a ir também por ele. Quando meu amigo teve alta, continuei indo. Prometi a Gustavo que eu seria sua amiga.

Em uma das visitas a Tempo de Viver, estava eu confraternizando com os pacientes, comendo a pizza que o pai de um deles havia levado. Quando adentra a sala de visitas um casal religioso. Eles eram de uma paróquia próxima e convidaram os pacientes e seus visitantes para rezar.
Fizemos um circulo na sala. A mulher me olhou e pediu que eu fizesse a leitura. Li um trecho da bíblia e confesso ter ficado emocionada com a situação. Aquelas pessoas precisavam tanto de uma palavra de amor, de esperança. Terminada a reza, as pessoas começaram a se abraçar. Os religiosos se aproximaram de mim. Notei que a cara da mulher era de piedade. Ela segurou em minhas mãos e com lágrimas nos olhos disse:

“Calma minha filha! Deus está no comando das coisas, você vai conseguir!”.

Entendi direito ou fui confundida com um paciente dependente químico? Tive preguiça de explicar a ela que eu estava ali visitando meu mais novo amigo Gustavo, que depois da reza me chamou pra uma conversa reservada. Ele me confessou ter planos pra nós dois quando saísse de lá. Tinha certeza que conseguiria largar o crack se eu o ajudasse! Foi minha última visita à Clínica Tempo de Viver. Não podia incentivá-lo a largar uma dependência e se agarrar a outra. E também porque confirmei minha tese que homem não faz NADA por uma simples amizade!!!

A verdade é que a vida nos oferta muitas muletas e por acharmos o caminho difícil demais, a gente pega várias. Uma escora o lado esquerdo, outra o direito, uma na frente, outra atrás... E de repente a gente não sabe mais o que é encostar os pés no chão. Depois largar quem a gente pensa ser responsável por nos manter em pé é quase impossível!
Embora tenha largado o cigarro, tenho consciência que ainda são muitas às muletas que preciso quebrar!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Brigas que eu nunca quis ganhar!



Brigar? Imagina nunca foi meu forte. Nunca fui boa de ofensas, pior ainda com a força bruta. Embora tenha feito judô, sou péssima no corpo a corpo.
Nos dois tipos de brigas que eu me envolvia (ou melhor, que me envolviam) eu sempre perdia e saia chorando.
Tenho dois irmãos mais velhos né, apanhei muito deles. Quando não era deles, era dos meus primos. Uma vez Rodrigo e Gustavo me jogaram no chão e me fizeram comer terra. Eu sempre entrava em casa chorando ou porque o João Felipe tinha me xingado ou Rafael me batido ou o Gustavo me esfolado. Mas tenho certeza que nenhum deles chorava quando brigava comigo.
Sou a favor daquele ditado as avessas: “Dou uma boiada par não entrar numa briga e duas boiadas para sair dela”!

Mas como algo no universo conspira... Parece que tudo que você repudia, acaba por atrair.
Eu devia ter uns 15 anos, em um carnaval, estava andando com uma amiga pelas ruas de Valença. Ela havia falado alguma coisa engraçada e eu ri. Em seguida, escutamos uma voz de mulher xingando até minha oitava geração: *&¨%$#@%¨&**&¨%$##, com certeza minha mãe teria ficado ofendida. Mas eu não, achei que não era pra mim. Minha amiga insistiu e disse que era. A pessoa que proferiu tais palavras contra minha querida mãe, aparentemente não gostava de mim, ela namorava um cara que eu já havia ficado. O fato deu passar rindo deu margem para que ela pensasse que meu riso seria para ele, confuso né? Imagina! Ainda estava tudo por começar.

Eu já estava decida a manter aquele episódio encerrado e fingir que tudo não passou de um mal entendido. Foi quando encontrei uma garota, que na época era uma grande amiga, e contei a ela o ocorrido. Ela não fazia aula de artes marciais, mas naquela época ela adorava uma confusão. Pedi que ela deixasse aquele assunto pra lá, mas ela se recusou e saiu atrás de “reforços”.

De repente eu me vi rodeada de meninas que eu nunca tinha visto na vida que diziam: “Vamo enfiá a mão nela”!!!

Deus!!! O que estava acontecendo? Quem eram aquelas? Elas nem me conheciam e pior nem conheciam a garota! Como queriam bater numa pessoa que nunca tinham visto???

Fui sendo empurrada por aquele grupo de meninas que me levaram até o local onde estava a garota. Fiquei nervosa, frio na barriga, vontade de chorar, um monte de gente olhando.

Me aproximei. Todas as meninas me olhando esperando uma atitude macha da minha parte.

 “Fulana, posso falar com você?” Perguntei com as pernas balançando.

“É comigo?” Perguntou a garota

“Sim é com você”! Minha afirmação foi tão educada que parecia que ia convidá-la para tomar um chá.

“Eu queria saber o porquê de você ter me xingado”. Mas na minha cabeça eu pensava, eu não quero saber, não precisa responder, já to indo pra casa!

“Porque você fica arreganhando esse seu sorrisinho pro meu namorado!!!” gritou ela.

Eu queria explicar pra ela que não, que aquilo foi um grande mal entendido, mas antes que eu pudesse falar uma das meninas que estava atrás de mim berrou:

“Mete a mão na cara delaaaaaa”

O namorado da garota a puxou e me pediu: “Não bate nela Vivianne”.  Em seguida o amigo dele disse: “Se for pra brigar vai ter que ser no mano a mano!!!”

Minha cabeça fervilhando pensava: “O que será que é mano a mano?”

“Gente, para, eu não bato nem no meu cachorro, quero sair daqui!” Me esquivei e fui saindo quase sem ser percebida.

Comentários de todos os jeitos, formas e tamanhos surgiram na semana seguinte ao acontecido. Mas parei de pensar naquilo tudo, queria esquecer aqueles momentos... Em um sábado, fui com aquela minha amiga que arrebanhou as meninas que gostavam de briga, a uma boate chamada Barcelona. Era a noite do cupido. As pessoas podiam mandar torpedos umas para outras, o cupido entregaria para o DJ, que os leria. Essa minha amiga foi convidada a ser um desses cupidos. Acabei ficando junto com um garoto que eu tinha conhecido um pouco antes de começar a festa.

Vi que a menina da confusão do carnaval estava lá com seu namorado e os pais dele. Mas como pra mim aquela história já tinha acabado, nem me preocupei.
De repente a música para e o DJ diz:

“Alô Galera!!! Mais um torpedão bombando aqui!
Fulano de tal (nome do garoto que seria o pivô de toda a briga do carnaval). Eu te amo...

Em milésimos de segundos eu pensei: “Nossa que bom que eles estão bem, a namorada dele mandando até torpedo”.

Continua o torpedão:

... Fica comigo, assinado Vivianne”.

O QUE??? QUE PORRA É ESSA??? Pensei eu, pensamos né, porque a namorada dele deve ter pensando a mesma coisa!

Caí num choro desesperado, de nervoso e de medo né, porque eu ia apanhar. Minha reação como sempre foi o diálogo. Me aproximei aos prantos da garota para tentar explicá-la que eu não havia mandando torpedo nenhum. Mas com razão ela queria me enforcar. Gritava para eu sair da frente se não ela iria me arrebentar! E eu? Eu só chorava, esqueceram que numa briga eu só sei chorar?!

Nunca descobri quem foi a pessoa que fez isso. Tiveram especulações na época, mas achei melhor deixar pra lá. Essa minha amiga que estava vestida de cupido tentou “minimizar” a situação e mandou um torpedão resposta:

“Fulano de tal. Você foi enganado, eu não disse nada. Assinado Vivianne.”

Vergonhas e brigas a parte, ainda bem que a memória do brasileiro é curta.

Nada me motiva a uma briga, nem quando me xingam ou me encaram. A única coisa que me faz realmente sair do sério é a injustiça ou então se fizerem alguma coisa com alguém que eu amo. Isso realmente me descontrola.
Trocar ofensas, chutes e pontapés NUNCA é a melhor opção. Esse é uns dos pontos positivos de ser filha de pedagoga. Ela te ensina a pensar, não a lutar! Aprendi que a conversa é sempre o melhor caminho, deve ser por isso que falo tanto! =)